A Inteligência da Escassez

Artigo de André Soares - 29/04/2019

  

 

 “... Hoje só Deus sabe a minha dor... Eu tive que perder prá dar valor... Não serei o mesmo sem o teu amor...”; é parte do refrão da canção “Não tem perdão”, da banda Sorriso Maroto, que nos suscita ensinamentos mais abrangentes e profundos, especialmente significativos quanto aos relacionamentos interpessoais. E a perfeita compreensão e aplicação desses conhecimentos na vida proporcionarão ao seu detentor o sucesso pessoal não apenas nas relações amorosas, objeto de inspiração da referida canção, mas também no universo absoluto das relações humanas. Trata-se da Inteligência da Escassez.

A filosofia da Inteligência da Escassez pode ser definida a partir do paradigma: “Nem tudo o que é escasso é valoroso. Mas, absolutamente tudo o que é valoroso é escasso. E quanto mais valoroso for, mais escasso será”. Contudo, a despeito da universalidade desse aforisma, causa estupefação como a maioria das pessoas não reconhece a importância de sua enorme aplicação na vida real, razão pela qual se tornam infelizes e por vezes vítimas de infortúnios.

Nesse sentido, para a melhor compreensão da Inteligência da Escassez, sintetizarei toda a miríade de exemplos existentes utilizando sua analogia perfeita com uma das pedras mais preciosas que existem no mundo, se não a mais preciosa de todas: o diamante.

Por que o diamante é tão valoroso e desejado?
Resposta: Porque o diamante é duplamente extraordinário.

Primeiramente, por possuir propriedades especialíssimas, não apenas relativas à estética ornamental das joias raras, mas também por serem de grande utilidade na produção científica e de altíssimo nível tecnológico. Portanto, a elevadíssima valoração do diamante para a humanidade é potencialmente originária da exponencial importância de suas características intrínsecas. 

O segundo valor extraordinário do diamante demanda, por sua vez, de um fenômeno circunstancial: a sua enorme escassez no planeta. Porque, ao contrário, se o diamante fosse abundante no mundo, consequentemente quanto maior fosse a sua fartura menor seria o valor atribuído a ele, mesmo a despeito de suas excepcionais propriedades intrínsecas.

Basta imaginar, por exemplo, se o diamante fosse tão abundante como o cascalho. Evidentemente que o seu valor seria igualmente depreciado, na exata dimensão de sua disponibilidade (lei da oferta e procura). Portanto, se a condição “sine qua non” para a valoração do diamante no mundo está na qualidade de suas propriedades intrínsecas, por outro lado é precisamente a sua enorme escassez que lhe demanda grande importância, fazendo-o ser tão desejado e disputado, como uma das pedras preciosas mais raras e caras que existem.

Destarte, guardadas as devidas proporções, em todo o universo das relações humanas não é diferente. Significa que, de forma congênere às pedras preciosas, o domínio ou não da expertise da Inteligência da Escassez classificará a humanidade em duas categorias principais: a categoria da maioria medíocre das pessoas “cascalho”, e a categoria da minoria das raríssimas e nobres pessoas “diamante”.

Como dominar a expertise da Inteligência da Escassez?

Primeiramente, assim como acontece com os diamantes, a condição “sine qua non” da Inteligência da Escassez é se tornar possuidor de “propriedades especialíssimas”. Isso significa desenvolver ao máximo possível todo o leque de atributos e competências individuais necessários para ser alguém extremamente diferenciado, em qualquer seara de atuação; mas desde que essas qualidades especiais sejam apreciadas e tenham grande relevância ou necessidade para as outras pessoas.

Posteriormente, e somente após se alcançar essa condição “sine qua non”, da mesma forma como os diamantes são escassos no mundo, dever-se-á se tornar deliberadamente “escasso” no contexto de todos os relacionamentos psicossociais, sem exceção; e tão mais “escasso” quanto mais valoroso for.

Em termos práticos, a Inteligência da Escassez consiste na expertise da pessoa “diamante” em saber restringir devidamente o acesso das pessoas a si mesma e à disponibilidade de suas intrínsecas “propriedades especialíssimas” em absolutamente todos os seus relacionamentos, principalmente no âmbito profissional, familiar, e ainda mais especialmente no amor e no casamento.

Caso contrário, inescapavelmente a “abundância” da pessoa “diamante” no âmbito das suas relações interpessoais demandará que o seu real valor seja progressivamente depreciado por todos, de tal sorte que será reduzida indistintamente à mediocridade das pessoas “cascalho”.

Compreende-se agora o porquê da humanidade somente reconhecer o verdadeiro valor de algo ou alguém depois da irreversibilidade da sua perda definitiva. É por isso que, por exemplo, o mundo só reconheceu a importância dos recursos naturais do planeta após os mesmos serem extintos ou gravemente ameaçados; filhos somente reconhecem o devido valor de seus pais depois que estes se vão; e amantes somente reconhecem um amor verdadeiro depois de o terem perdido, como enfatiza a linda canção.

Portanto, se você é uma pessoa “diamante”, domine e empregue o quanto antes a expertise da Inteligência da Escassez em sua vida e em seus relacionamentos, antes que seja tarde demais, e a sua morte venha rapidamente ter que fazer isso por você.