A ilusão do Amor

Artigo de André Soares - 09/12/2019

 

“Eu te amo!” é a maior declaração universal de amor, que certamente você já declarou a alguém ardentemente em sua vida, e muito provavelmente também já a recebeu em reciprocidade, por diversas vezes. Mais prazeroso do que dizer “Eu te amo!” é ouvi-lo de quem se ama. Como é bom amar e, mais ainda, ser amado(a), não é mesmo? Contudo, vale aqui um importante alerta de vida: Mas será verdade? Isso mesmo! Será que você ama verdadeiramente quem diz amar, e é verdadeiramente amado(a) por quem peremptoriamente te afirma isso? Ou você acha que o fato de alguém simplesmente dizer “Eu te amo!”, mesmo que emocionalmente banhado por lágrimas nos olhos, significa que esse suposto amor seja verdadeiro? Pois saiba que, na imensa maioria das vezes, não é: nem quando você diz “Eu te amo!”, nem quando você ouve isso de quem quer que seja.

“Eu te amo!”, que deveria ser a máxima e universal expressão da comunhão afetiva entre as pessoas, é na verdade a maior e mais cruel mentira a atingir nossos corações. Como bem disse Caetano Veloso em sua canção:

“...É um abusar de um santo nome, em vão....

ou é a santificação de uma banalidade...”

“Eu te amo!” sempre foi usado pelas pessoas como uma grande blasfêmia contra o próximo, contra si mesmas e contra o próprio amor. Quanta desilusão, sofrimento e toda a sorte de infortúnios e tragédias são cometidos, em nome do amor! Amor fraternal, amor paternal, amor maternal, amor ao próximo, amor à pátria, amor romântico... Afinal, o que é o amor?

Tem certeza que você sabe verdadeiramente o que é o Amor?

Porque inúmeras são as respostas, pois em algum momento de suas vidas todos se convencem imaginar saber o que é o amor. Os poetas são especialmente célebres em inspiração a nos ajudarem nessa difícil investigação. Só para citar alguns:

Na visão romântica de Camões (Luís Vaz de Camões)

“Amor é fogo que arde sem se ver,

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente,

É dor que desatina sem doer...”

 

No sentimento apaixonado de Vinícius de Moraes

“E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.” 

Na abstração sofrida de Djavan

"Amar é um deserto e seus temores

Vida que vai na sela dessas dores

Não sabe voltar

Me dá teu calor

Vem me fazer feliz porque eu te amo

Você deságua em mim e eu oceano

E esqueço que amar é quase uma dor..." 

E para você?

O que é o amor?

Tem certeza?

Pois, foi Arlindo Cruz, em sua primorosa lucidez, quem respondeu essa pergunta com sabedoria e grande talento, em sua canção - “O que é o amor?”:

“Se perguntar o que é o amor pra mim 

Não sei responder

Não sei explicar;

... Até hoje ninguém conseguiu definir o que é o amor.”

Aí está a origem, a explicação e a causa de tantos e terríveis males do amor: a ignorância. Como querer viver o que se desconhece? Significa, portanto, que como o amor é um universo desconhecido, na melhor hipótese, aquele que diz “Eu te amo!” (mesmo que o faça com sinceridade, pois ainda há os que mentem premeditadamente), em verdade, é um(a) “ignorante confuso(a)”. Ignorante porque fala sobre o que não sabe; e confuso(a) porque está perturbado com a determinação de seus próprios sentimentos.

É importante frisar que não há aqui qualquer intenção em ofender, quem quer que seja. Isso porque certamente muitas pessoas, assim como você, poderão estar se sentindo meio ofendidas, por estarem sendo qualificadas como um(a) “ignorante confuso(a)”, pois certamente já proferiram equivocadamente e efusivamente “Eu te amo!”, em suas vidas. Mas, verdade seja dita – é isso mesmo.

Afinal, o que é o amor?

Enquanto você não souber responder essa pergunta verdadeiramente, sem arroubos delirantes e histéricos, evite enganar e se auto-enganar na irresponsabilidade de dizer "Eu te amo!"

Todavia, há uma boa notícia: porque mesmo que você não saiba o que é o Amor, há uma valiosa forma de saber como identificá-lo precisamente. Isso porque o Amor verdadeiro tem duas características indissociáveis que o revelam:

  1. O Amor verdadeiro é para sempre, e
  2. Quem ama verdadeiramente, ama com a própria vida. 

Portanto, se o suposto amor de quem diz "Eu te amo! " em algum momento acabar, ou se quem o alardeia não sacrificar sua própria vida em seu nome, então indubitavelmente isso não é e nunca foi Amor de verdade. Trata-se de mera ilusão do amor. Ou seja: uma mentira. Por derradeiro, caso você seja digno de saber amar verdadeiramente, então é crucial não se deixar enganar e se iludir pela sedução de ouvir de quem quer que seja: "Eu te amo!". Porque amar de verdade é também uma questão de responsabilidade ética. Portanto, nunca se esqueça: “Aquele(a) que não estiver disposto a lutar pelo seu amor, não o merece”.

 

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