A ética da mentira

Artigo de André Soares - 22/04/2020

 

 

Desde que nascemos, a primeira coisa que aprendemos reiteradamente de nossos pais, e posteriormente de professores, padres, religiosos e governantes, é que mentir é feio, errado, pecaminoso e até mesmo criminoso. Quanta hipocrisia e falsidade! “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço!” Porque são exatamente os pais, professores, padres, religiosos e governantes, aqueles que mais bombardeiam seus filhos, alunos, discípulos e concidadãos com imperdoáveis e hediondas mentiras, visando a enganá-los e prejudicá-los, a propósito de seus interesses espúrios e criminosos. Contudo, a verdade verdadeira que não é ensinada é que, por outro lado, mentir também pode ser correto, virtuoso, juridicamente legal e, acima de tudo, exemplarmente ético.

Mas o que é a mentira? A mentira nada mais é do que uma afirmação contrária à verdade, ou a sua deliberada omissão, objetivando enganar ou induzir a erro a(s) pessoa(s)-alvo contra quem é dirigida. Nesse sentido, mentir será errado, pecaminoso e até mesmo criminoso, se enganar ou induzir a erro qualquer pessoa ou entidade, dignos e de boa fé. Mas, caso contrário, mentir poderá ser, além de imperiosamente necessário, acima de tudo ético.

Todavia, contrariamente aos princípios da ética, desde os primórdios, a humanidade fomenta indiscriminadamente a propagação e o culto de incontáveis e deletérias mentiras, algumas das quais são celebradas mundialmente, como sendo aparentemente inofensivas. Afinal, certamente você acreditou ou ainda acredita passivamente nelas, e pior: também impôs aos seus próprios filhos que acreditassem em mentiras estúpidas, como por exemplo as universalizadas “fake News” sobre “Adão e Eva”, “arca de Noé”, “papai Noel” e “coelho da Páscoa”, só para citar algumas das mais conhecidas. E você acha que induzir filhos a acreditarem em mentiras absurdas, que lhes são prejudiciais, é atitude ética dos pais? Claro que não! Pois se trata de conduta repulsiva e indubitavelmente antiética, congênere à idêntica mentira perpetrada por Deus contra Abrahão, quando o ordenou que matasse seu próprio filho, como prova de sua lealdade a Ele.

Verdades sejam ditas:

“Que filho gostaria de ter pais mentirosos, que lhes enganam prejudicialmente sobre a verdade?”. 

“Que pai gostaria de ter um Deus mentiroso, que lhe manda matar o próprio filho?” Ou será que Deus não estava mentindo?

Todavia, contrariamente ao desvirtuamento dessas e de todas as demais mentiras antiéticas que enganam prejudicialmente a humanidade, por outro lado é crucial desvelar e identificar as raras situações em que mentir é imperiosamente necessário, exatamente por ser benéfico, nobre e extremamente ético.

A primeira dessas situações é quando o perpetrador emprega determinada mentira, em seu próprio sacrifício pessoal, por ser a melhor alternativa para promover o bem-estar de pessoa digna e de boa fé, ou o bem comum. É o caso, por exemplo, do comandante que, em pleno combate, sacrifica-se heroicamente omitindo de seus comandados sobre a gravidade de seus ferimentos, visando a manter elevado o moral da tropa, objetivando o melhor cumprimento da missão recebida.

A segunda situação se dá quando o emprego de determinada mentira é a melhor alternativa para promover o bem-estar de pessoa digna e de boa fé, desde que corrobore os seus próprios valores, e não contrarie os valores morais e preceitos éticos de seu perpetrador. É o caso, por exemplo, daquele que mente ao amigo enfermo, afirmando-lhe que ele está visivelmente melhorando de sua doença, objetivando encorajá-lo e motivá-lo psicologicamente, em prol de seu tratamento e recuperação.

Por fim, a derradeira e última situação ocorre quando o emprego de determinada mentira é a melhor arma para se obter a destruição de inimigos. Isso porque, como inimigos não são dignos de boa fé, é eticamente primordial saber que: “Não é ético ter ética, com quem não tem ética”.

 

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