A "escalada" da vida

Artigo de André Soares - 17/07/2020

  

 

O êxito na vida guarda grande analogia com o êxito nos desportos, a exemplo do alpinismo; destacando-se, neste caso, três dos seus elementos primordiais em comum: o alto risco, a excelência dos alpinistas e a qualidade das cordadas. Assim, o entendimento e a aplicação prática dos paradigmas dessa similitude é de todo crucial para o sucesso pessoal, em todas as searas da vida.

Ao contrário do que se possa imaginar, o êxito na “escalada” da vida pode ser tão arriscado quanto a escalada dos mais íngremes picos e montanhas. Porque alcançar a plenitude do sucesso pessoal implica em vencer óbices tão perigosos quanto os do alpinismo. Dessa forma, assim como vários alpinistas fracassam e até mesmo morrem, vitimados por diversas e imprevisíveis adversidades, é importante cientificar-se de que o destino reserva igualmente numerosas e imprevisíveis contingências, e até mesmo fatais, aos candidatos à bem sucedância. Portanto, o alto risco, em suas diversas naturezas, é intrinsicamente inerente ao sucesso pessoal; restando àqueles que o almejarem terem a devida expertise e coragem para vencê-lo.

Por outro lado, assim como alpinistas são dotados de atributos especialíssimos, de forma congênere são as pessoas bem-sucedidas; cuja excelência é edificada ao longo de toda vida, por meio de um processo sistemático de autoconhecimento e auto aperfeiçoamento. Contudo, aqui se insere um ponto de inflexão crucial, tanto para alpinistas, como para “escaladores” do sucesso. Trata-se de decidir se a referida “escalada” será realizada em parceria, ou sozinho (“free solo”).

No primeiro caso, estabelecer-se-ão obrigatoriamente as cordadas; que, no alpinismo, é a denominação da união de um escalador aos demais, por meio de uma corda. Consequentemente, a eficiência das cordadas está diretamente afeta à expertise dos escaladores envolvidos e à qualidade das cordas utilizadas; que determinarão o sucesso ou fracasso da escalada, podendo inclusive demandar a morte de um, ou até mesmo de todos os alpinistas.

Essa analogia se reproduz igualmente na “escalada” da vida, cujas “cordadas” nada mais são que os relacionamentos humanos, estabelecidos pelas pessoas em todas as searas suas vidas, desde o núcleo familiar, escolar, religioso, profissional, conjugal, etc...; os quais corroborarão inequivocamente tanto o eventual sucesso ou fracasso da pretendida “escalada”. Nesse sentido, ressalta-se a sabedoria do filósofo Aristóteles, que profetizou, deste o século III A.C., que “o ser humano é um animal social”; demonstrando assim a importância vital do relacionamento humano para a sobrevivência do indivíduo e a perpetuação da nossa espécie. Portanto, a consecução de uma vida auspiciosa requer que todas as suas “cordadas” sejam constituídas por pessoas especialíssimas, concomitantemente com o alto nível da reciprocidade desses relacionamentos.

Entretanto, no contexto da atual crise do “mal do século”, que é a pandemia de doenças e transtornos mentais que aflige a humanidade, não seria exagero afirmar que a constituição de relacionamentos pessoais de excelência está muito mais difícil que a formação de cordadas de alto nível para escalada do Everest, que é o mais elevado e um dos mais perigosos picos do planeta. Portanto, mais que uma tragédia psicossocial da atual conjuntura, esta fatalidade representa um importante alerta às raríssimas e especialíssimas pessoas verdadeiramente vocacionadas ao sucesso na “escalada” da vida. Porque, como são cada vez mais intransponíveis as dificuldades na constituição de “cordadas” de excelência nos relacionamentos interpessoais, muito provavelmente o destino fatídico de qualquer tentativa de “escalada” audaciosa terá indubitavelmente um único resultado final: o abismo.

Todavia, a consciência deste alerta não significa a abdicação aos triunfos e glórias da “escalada” do sucesso, mas simplesmente a inteligência de não se suicidar por ele. A boa notícia é que, ainda assim, o êxito na “escalada” da vida permanece plenamente possível. Mas, tão somente aos “escaladores” super excepcionais, que optarem pela perigosíssima alternativa “free solo”.

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